SINAL
DO CÉU
Cassiano Ricardo
E uma cruz misteriosa de estrelas
abriu no céu os seus braços de luz
como uma enorme profecia:
Eu sou a cruz do cruzamento!
O cruzeiro do amor universal.
Eu tenho estes braços abertos
assim, na amplidão dos espaços
como que pra dizer: vinde todos!
que este céu é bastante profundo
e servirá de teto a todos quantos
sofrem no mundo;
que este chão é bastante fecundo
e dará de comer a todos quantos
têm fome, no mundo;
que
estes rios darão de sobejo
pra mitigar a sede a todos quantos
têm sede, no mundo.
Sinal da cruz, descrucificador
porque signo de “mais”, de soma e aliança.
Eu sou a cruz do amor.
Um abraço de estrelas a quem chega
à procura de uma ilha
no mapa-múndi da desesperança.
Porque eu sou o caminho, ainda obscuro,
por onde, finalmente,
desfilará a humanidade do futuro.
Dhâranâ nº 13 e 14– Janeiro a Junho de 1960